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Shapur I: um dos maiores reis do Império Sassânida

Atualizado: 3 de mar.


Shapur I: um dos maiores reis do Império Sassânida - História em Destaque

Estátua Colossal de Shapur I. Turpalt (CC BY-SA).


O rei Shapur I (conhecido também como Sapor I, r. 240 – 270 d.C.) era filho do governante persa Ardashir I (r. 224 – 240 d.C.), fundador do Império Sassânida. Shapur I é considerado um dos maiores reis do Império Sassânida graças as suas importantes realizações, como a expansão de seu reino, sua política de tolerância religiosa, grandes projetos de construção e comprometimento com as escrituras zoroastrianas (Avesta).


Durante o governo de seu pai, o jovem Shapur I foi nomeado co-regente, e sempre era levado em campanhas militares para aprender a arte da guerra. O rei Ardashir I era um habilidoso líder militar, famoso não apenas por derrotar – por diversas vezes – o rei parta Artabanus IV (r. 213 – 224 d.C.), mas também por ter sido o responsável pela queda do Império Parta, anexando-o ao seu. Shapur I seguiu as lições de seu pai e as usou efetivamente contra seus inimigos, principalmente contra Roma.


Nos conflitos contra Roma, Shapur I provou ser um adversário inteligente e imprevisível. Ele realizou o feito de ser o primeiro governante estrangeiro a capturar um imperador romano em batalha - o imperador Valeriano (r. 253 – 260 d.C.) -, e estava se saindo muito bem na guerra de conquista contra o Império Romano até entrar em conflito com o governador romano da Síria, Odaenathus (falecido em 267 d.C.), que o venceu em batalha e o expulsou do território romano. Após a derrota para Odaenathus, Shapur I não mais realizou campanhas contra Roma, nem seu filho e sucessor Hormizd I (r. 270 – c. 273 d.C.), que manteve uma trégua com Roma durante seu reinado.


Além de um grande rei guerreiro, Shapur I tinha outros talentos igualmente impressionantes. Ele foi um brilhante administrador, estabeleceu políticas de tolerância religiosa e incentivou as artes e a cultura. O minarete abobadado foi desenvolvido durante o seu reinado e definiria os seus projetos de construção e os da região até os dias atuais.


Ao rei Shapur I também é creditado o impressionante arco conhecido como Taq Kasra na capital de Ctesiphon. Ele era um monarca popular e foi homenageado por meio de inscrições e da Estátua Colossal de Shapur I, localizada na Caverna de Shapur, no Irã.


Juventude e ascensão ao poder

O pai de Shapur I era vassalo do rei parta Artabanus IV (latinizado como Artabanos IV), que considerava Ardashir I e sua família meros encrenqueiros. Anteriormente, Papak (avô de Shapur I) havia assumido o controle do distrito de Istakhr, local das ruínas da grande cidade persa de Persépolis. A antiga capital do Império Persa (Persépolis) teve grande importância para o Império Parta, que reivindicou legitimidade para o seu reinado através das antigas glórias dos persas. Após a morte de Papak, seu filho Ardashir I manteve o controle de Istakhr, desafiando a autoridade do rei Artabanus IV. Ardashir I tinha ao menos três filhos, mas ao que tudo indica, Shapur foi o seu favorito desde o nascimento.


Depois de algum tempo tolerando a afronta de Ardashir I, o rei parta Artabanus IV enviou seu vassalo (o rei de Khuzestan), contra Ardashir, mas sem sucesso. Artabanus IV, então, liderou pessoalmente suas tropas em campanha para atacar o rei persa, encontrando-o por duas vezes em batalha, mas saiu derrotado nas duas; no segundo encontro o rei parta foi morto. Após a vitória, Ardashir I fundou a Dinastia Sassânida sobre as ruínas do Império Parta. Shapur I participou de todas essas campanhas ao lado de seu pai.


Moeda de prata de Shapur I - Historia Em Destaque

Moeda de prata de Shapur I (Museu Reza Abbasi, Teerã, Irã). (CC BY-SA)


Para consolidar seu poder, Ardashir I teve que enfrentar algumas revoltas, como a insurgência do rei Khosrau I da Armênia, que formou um exército e se aliou a diversas potências, incluindo o reino de Kushan e Roma. Nessa época, já demonstrando sua habilidade militar, Shapur I se antecipa ao inimigo e ataca primeiro, aniquilando os rebeldes e capturando o reino de Kushan após derrotar Khosrau I. Logo depois, o rei Ardashir I enviou seu filho para uma nova campanha, agora contra os romanos na Mesopotâmia em c. 230 d.C.


Apesar dos escritores romanos afirmarem que Shapur I foi derrotado em batalha pelo romano Alexandre Severo, não há evidências de perda de território sassânida para os romanos nem registros de significativa vitória romana. Em 240 d.C., Ardashir I estava cansado da guerra e de governar, então, nomeou Shapur I seu co-regente. Quando o rei morreu, no final daquele mesmo ano, seu filho Shapur I assumiu o reino e o título persa de Rei dos Reis.


Administração e tolerância religiosa

Tanto Shapur I quanto seu pai, Ardashir I, realizaram grandes construções cujos palácios e templos mostraram uma série de inovações, como entradas abobadadas e minaretes que se tornaram um marco da arquitetura iraniana futura. Em parceria com sua esposa Azadokht Shabanu, Shapur I estabeleceu um centro de aprendizagem e primeiro hospital-escola (o Gundeshapur). Esse complexo se tornaria o maior centro intelectual de seu tempo e o modelo para hospitais e universidades futuras. Shapur I também tinha consciência da importância da fé religiosa na unificação de um império ou nação, e assim instituiu o seu próprio Zoroastrismo.


Ele também entendia que para uma longevidade de seu império, a diversidade religiosa seria de extrema importância. Desde o início de seu reinado, aderiu a uma política de tolerância religiosa, tolerando que cristãos, judeus e outras religiões praticassem sua fé livremente. A tolerância de Shapur I permitiu o desenvolvimento de uma das crenças religiosas mais influentes do mundo antigo – o maniqueísmo – fundada por Mani (216 – 274 d.C.), que tinha seu lugar na corte de Shapur I. Foi permitido aos cristãos construir igrejas e sinagogas judaicas, ainda que seus ensinamentos estivessem em desacordo com a religião do estado.


O zoroastrismo era perfeitamente adequado a um governo cujo foco era principalmente a guerra. A visão do zoroastrismo era da luta entre as forças do bem contra o mal, luz contra escuridão. O rei Shapur I se via como um líder das forças da luz e se comportou de acordo, estimulando a prática pacífica de todas as religiões em seu reino. Ele também comandou seus exércitos contra aqueles que ele via como as forças das trevas.


Guerra com Roma

Mesmo citado por vários escritores – exceto escritores romanos – como sendo um administrador e governante capaz, cujo reinado é registrado em diversos textos antigos, Shapur I se considerava, primeiramente, um rei-guerreiro. Ele capturou fortalezas e cidades romanas na Mesopotâmia e direcionou suas tropas para conquistar mais território, expandindo o reino que herdara de seu pai.


Após a morte de Alexandre Severo, assassinado por seus próprios homens em campanha na Germânia em 235 d.C., Shapur I obteve diversas vitórias contra Roma. Depois da morte de Severo, o Império Romano mergulhou no período caótico conhecido como a Crise do Terceiro Século (235 – 284 d.C.), durante o qual mais de 20 imperadores romanos ascenderam e caíram em quase 50 anos. Shapur I soube aproveitar a confusão no império romano para ampliar ainda mais seu reino.


Mais uma vez o rei Shapur I lança sua campanha contra os romanos na Mesopotâmia, mas foi capturado pelo imperador Gordiano III (r. 238 – 244 d.C.), com apenas 17 anos na época. Gordiano III não tinha experiência como estadista, e confiava nos conselhos e estratégias de seu sogro e prefeito pretoriano, Gaius Timesitheus, um habilidoso comandante. No início, Shapur I foi derrotado pelas forças de Gordiano III, mas quando Timesitheus morreu em decorrência de doença em 243 d.C., a situação mudou; Gordiano III não tinha um talento nato para a guerra e nenhuma capacidade de combater as estratégias militares de Shapur I. Na primavera de 244 a.C., Gordiano III foi assassinado por suas tropas que o substituíram pelo comandante popular, Filipe, o Árabe (r. 244 -249 d.C.).


Marcus Julius Philippus (Filipe, o Árabe), era prefeito pretoriano, e tornou-se imperador após o assassinato de Gordiano III. Filipe queria se livrar do conflito com os persas para lidar com outros desafios que Roma enfrentava. Ele fez um acordo de paz com Shapur I e pagou-lhe 500.000 dinares como parte do tratado. Após o acordo, Filipe cedeu a região disputada da Armênia a Shapur I, mas retrocedeu e recuperou a região; essa atitude rompeu o acordo de paz e reacendeu as hostilidades.


Novamente, Shapur I atacou os romanos na Mesopotâmia e capturou a província romana da Síria, conquistando a cidade de Antioquia. A cidade era um dos centros urbanos mais influentes da Roma antiga, e sua captura foi contestada pelo imperador Valeriano que marchou contra Shapur I e o expulsou da cidade, mas as tropas romanas foram acometidas por uma praga e os homens foram obrigados a recuar para atrás das muralhas de Antioquia.


A cidade de Antioquia foi sitiada por Shapur I, forçando Valeriano a aceitar os termos de rendição. Valeriano montou um grupo de anciãos e foi ao encontro de Shapur I esperando ser tratado de acordo com as regras que estavam acostumados, mas estas não eram seguidas pelo persa, e eles foram presos. De acordo com textos antigos, o rei Shapur I não considerava as “forças das trevas” dignas de negociação. Sob o comando de Hormizd I (filho de Shapur I), as forças sassânidas intensificaram o cerco a cidade, e Antioquia finalmente caiu. Segundo a lenda, Shapur I usou Valeriano como banco que o rei persa usava para montar em seu cavalo. Após ser morto, o imperador romano teve seu corpo empalhado e exposto no palácio para ser visto por dignitários visitantes.


Shapur I e Odaenathus

Durante a Crise do Terceiro Século, Roma estava em um estado de caos quase constante. Nessa época, elevar um homem à posição de imperador de Roma era quase uma sentença de morte, mas isso não era um empecilho para homens ambiciosos que disputavam continuamente o trono.


A cidade de Palmyra, na Síria, localizada na fronteira oriental do Império Romano, era governada por um homem chamado Septimius Odaenathus, que parece ter considerado Shapur I uma ótima oportunidade de aumentar sua fortuna do que qualquer outro imperador de Roma. Ele enviou a Shapur I uma oferta de aliança, rejeitada de imediato. O rei persa não considerava Odaenathus seu igual, e desejava que o imperador romano se tornasse seu vassalo.


Após ser insultado por Shapur I, o imperador Odaenathus mobilizou suas tropas alegando tentar libertar Valeriano dos sassânidas. Entre as forças de Odaenathus que marchou contra Shapur I havia uma tropa de beduínos que conhecia muito bem a região, tanto quanto, o exército sassânida. Diferentemente das tropas de Gordiano III e Valeriano, que foram enviados por Roma, os beduínos de Odaenathus estavam adaptados ao clima da região, com isso, conseguiram derrotar Shapur I e expulsá-lo com seu exército dos territórios romanos.


Após perder os territórios conquistados, Shapur I acabou recuando para suas fronteiras. Odaenathus foi recompensado por seus serviços prestados a Roma, sendo elevado ao de governador de toda a província da Síria. Ele morreu em uma viagem de caça em c. 267 d.C., e o governo passou para seu filho, mas o poder seria exercido por sua esposa Zenobia (r. 267 -272 d.C.), que fundaria o Império Palmirense.


Conclusão

Após ser derrotado por Odaenathus, Shapur I concentrou-se em questões domésticas. Ele conseguiu manter uma paz prudente com Roma, e nunca mais se moveu contra ela. Ele se dedicou a incentivar um alto nível de alfabetização e cultura em sua corte, que serviria de modelo para o resto dos cidadãos. Estudiosos acreditam que os nobres persas no tempo de Shapur I eram indivíduos cultos que provavelmente tinham conhecimento de literatura e artes. Muitos deles jogavam polo e xadrez. Até sua morte, Shapur I manteve seu império estável e próspero, e foi sucedido por Hormizd I, que continuaria suas políticas.


Shapur I é considerado um rei nobre e um guerreiro formidável, um dos maiores monarcas sassânidas, assim como Shapur II (r. 309 – 379 d.C.), Kavad I (r. 488 – 496, 498 – 531 d.C.) e Kosrau I. A Colossal Estátua de Shapur I, com 6,7 metros de altura, foi esculpida em uma única estalagmite em uma caverna conhecida como a Caverna de Shapur no atual Irã. A lenda sobre essa caverna afirma que ela abriga o túmulo de Shapur I, mas isso nunca foi comprovado.


Mesmo depois de vários anos, a grandiosa estátua esculpida e decorada com joias na antiguidade, permanece impressionante e dá uma ideia da grandeza do reinado de Shapur I. Ele manteve seu reino mesmo após a derrota para o romano Odaenathus, e continuou suas políticas de justiça, tolerância religiosa, grandes projetos de construção e propagação cultural.



Bibliografia

Mark, Joshua J. "Shapur I." World History Encyclopedia. World History Encyclopedia, 16 de novembro de 2017. Acesso: 26 de setembro de 2023.

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